Francisco: “Eu sou um homem perdoado”

O Santo Padre fala sobre a misericórdia em uma entrevista concedida à revista Credere, a publicação oficial do Ano Santo Extraordinário

Ivan de Vargas |  03 de Dezembro | ZENIT.org |  Papa Francisco |  Roma
A revista italiana Credere, publicação oficial do Ano Santo Extraordinário, que começa no próximo dia 8 de dezembro, realizou uma entrevista exclusiva ao Papa Francisco na qual o pontífice explica os motivos do Jubileu da Misericórdia e as expectativas.

“A questão da misericórdia, diz o Santo Padre para o editor da revista, o padre Antonio Rizzolo– se acentua fortemente na vida da Igreja desde Paulo VI. Foi João Paulo II que a enfatizou fortemente com a Dives in Misericordia, a canonização de Santa Faustina e a instituição da festa da Divina Misericórdia na Oitava de Páscoa”. Nesta linha, “senti que existe como que um desejo do Senhor de mostrar aos homens a sua misericórdia. Então, não é que me surgiu do nada, mas retomo uma tradição relativamente recente, embora sempre existiu. E percebi que era necessário fazer algo para continuar com esta tradição”.

“É óbvio que o mundo de hoje tem necessidade de misericórdia, precisa de compaixão, ou de padecer com”, continuou o Pontífice. “Estamos acostumados às más notícias, às notícias cruéis e às atrocidades maiores que ofendem o nome e a vida de Deus”, lamenta. “O mundo precisa descobrir que Deus é Pai, que tem misericórdia, que a crueldade não é o caminho. Cai-se na tentação de seguir uma linha dura, na tentação de enfatizar só as normas morais, mas quantas pessoas ficam fora!”, enfatiza.

“Veio-me à mente a imagem da Igreja como um hospital de campanha após a batalha; é a verdade: quantas pessoas feridas e destruídas! Os feridos são curados, ajudados e não submetidos a exames de colesterol. Acho que este é o momento da misericórdia”, disse o papa. “Todos nós somos pecadores, todos temos pesos interiores. Senti que Jesus quer abrir a porta do Seu coração, que o Pai quer mostrar as suas entranhas de misericórdia, e, por isso, nos envia o Espírito: para mover-se e para mover-nos. É o ano do perdão, o ano da reconciliação”, reitera.

Questionado sobre a sua experiência pessoal da misericórdia divina, Francisco reconhece: “Sou pecador, me sinto pecador, tenho certeza de ser pecador; sou um pecador a quem o Senhor olhou com misericórdia. Sou, como eu disse aos presos na Bolívia, um homem perdoado. Sou um homem perdoado, Deus me olhou com misericórdia e me perdoou. Ainda cometo erros e pecados, e me confesso a cada quinze ou vinte dias. E se me confesso é porque preciso sentir que a misericórdia de Deus ainda está em mim”.

O Santo Padre recorda também que teve essa sensação de forma especial no dia 21 de setembro de 1953, quanto sentiu a necessidade de entrar em uma igreja e confessar-se com um sacerdote que não conhecia e a partir de então a sua vida foi diferente; decidiu tornar-se sacerdote e aquele confessor, enfermo de leucemia, o acompanhou durante um ano. “Morreu no ano seguinte – relata -. Depois do funeral chorei amargamente, me senti totalmente perdido, como que com o temor de que Deus tivesse me abandonado. Este foi o momento em que me submergi na misericórdia de Deus e está muito unida ao meu lema episcopal: o dia 21 de setembro é o dia de São Mateus, e Beda o Venerável, falando da conversão de Mateus, diz que Jesus olhou-o miserando atque elegendo”. “Trata-se de uma expressão impossível de traduzir, porque em italiano um dos dois verbos não tem gerúndio, nem sequer em espanhol. A tradução literal seria “misericordando e elegendo”, quase como um trabalho artesanal. “Misericordiou-o!”: esta é a tradução literal do texto”, indica.

“Muitos anos depois, recitando o breviário latino, achei esta leitura, lembrei-me de que o Senhor tinha me modelado artesanalmente com a Sua misericórdia. Cada vez que vinha à Roma, porque ficava hospedado na Via della Scrofa, ia até a Igreja de São Luis dos Franceses, para rezar diante do quadro de Caravaggio, sobre a Vocação de São Mateus”, diz.

Para o Papa, o Jubileu da Misericórdia também pode ser uma oportunidade para redescobrir a “maternidade” de Deus: “Ele mesmo o afirma quando diz em Isaías que se uma mãe se esquecesse do seu filho, também uma mãe pode esquecer… “eu, pelo contrário, não te esquecerei jamais”. Aqui se vê a dimensão materna de Deus. Nem todos compreendem quando se fala da “maternidade de Deus”, não é uma linguagem popular – no bom sentido da palavra – , parece uma linguagem um pouco escolhida; por isso prefiro usar a ternura, própria de uma mãe, a ternura de Deus, a ternura nasce das entranhas paternas. Deus é pai e mãe”.

Por fim, o Papa Francisco adverte que a descoberta de um Deus misericordioso traz uma mudança de atitude em relação aos outros. “Hoje, a revolução é a da ternura, porque daqui vem a justiça e todo o resto”, afirma. “A revolução da ternura é aquela que hoje temos que cultivar como fruto deste ano da misericórdia: a ternura de Deus com cada um de nós. Cada um de nós deve dizer: “Sou um desgraçado, mas Deus me ama assim; então, também eu tenho que amar os outros da mesma forma”, esclarece. “Descobrir isso nos levará a ter uma atitude mais tolerante, mais paciente, mas terna”, conclui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.